HENRIQUE NUNES

José, Zeza e eu


23/10/2014 - 14h00 - Atualizado em 23/10/2014 - 01h00 | Henrique Nunes
henrique.nunes@rac.com.br

“Vem por aqui”, disse-me Zeza com os olhos doces, estendendo-me os braços, e seguro de que seria bom que o ouvisse recitar este e outros versos do poeta luso José Régio. Mas eu preferia era a poesia mundana, as sensatas bravatas e as lúcidas loucuras deste meu amigo. “O dia é seu, não meu”, justifiquei, como que a cruzar os braços, com olhos repletos de ironias e cansaços, a sentença de vida do meu camarada.
 
Oras, o dia era dele, claro, como foi todos os vinte e um de outubro dos últimos sessenta e oito anos, escritos assim mesmo, por extenso, sem números ou abreviações. O dia era dele, repito, mas parecia não haver florestas virgens para deflorar. As horas se arrastavam e ainda mal havia sequer um rabisco na areia inexplorada. Isso tudo até a bola começar a rolar no Majestoso. O dia era dele, sim, mas a noite foi totalmente da Macaca.
 
“Se a Ponte vencer, quem ganha sou eu”, sussurou Zeza, sem saber se entraria em becos lamacentos. Sem saber é sacanagem. Com a fase que a sua Alvinegra está, era só questão de tempo para o bolo de aniversário ser cortado em três atos — um na primeira etapa, dois para confirmar o presságio. Três presentes numa noite só. Isso sim é sacanagem.
 
A noite já ia raiando, meu mestre, mas você não queria ir embora. O cântico partia do Moisés Lucarelli direto para os seus ouvidos num sofá qualquer da Vila Industrial.
 
“Eu amo o longe e a miragem”, deve ter justificado o velho amigo quando decidiu fazer a festa à distância, sem casos e acasos para interrompê-lo. Era como se a Macaca quisesse se fazer ouvir. Era, acima de tudo, um sonoro recado ao torcedor aniversariante. “O parabéns não é para mim. É para ela.”
 
Ainda pensei em prolongar a esquete de número sessenta e oito. Mas sei que Zeza me diria: “Só vou para onde me levam os próprios passos.”
 
Penso em Zeza e no dia em que recitou José Régio de cabo a rabo, com oratória firme e coração mole. Já faz tempo, mas só agora fui entender o peso daquelas palavras. José Régio, Zeza Amaral e a Ponte tinham, ali, unidade, coerência e também algo a me dizer: que ninguém me dê piedosas intenções, me peça definições ou me diga "vem por aqui"!. Porque se a vida é cheia de regras e tratados, há sempre uma fagulha de felicidade para nos acabar com o tédio que é sonhar.






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