HENRIQUE NUNES

Portuga caiu junto com a Portuguesa


29/10/2014 - 22h25 - Atualizado em 29/10/2014 - 22h45 | Henrique Nunes
henrique.nunes@rac.com.br

Nem mesmo quando caminhava sobre campos nada verdejantes, ou mergulhava em águas turbulentas, o Portuga se queixava da vida. Dizia, com a auto-ironia dos lusos, que eram tempos de “vacas anoréxicas”. Portuga ria sem padecer de juízo. Era, e ainda é, um imigrante cuja política da boa vizinhança nunca se pautou pela treta histórica entre colonizadores e colonizados. Era assim o amor do Portuga: bígamo, um pé lá outro cá, mas com a devida atenção às duas fêmeas-pátrias de seu coração.
 
Portuga ria ainda mais quando a amante Brasil se mostrou próspera para os seus negócios. É verdade que o sorriso nunca se transformaria em gargalhadas, mas os dentes estavam sempre à mostra do outro lado do balcão. Portuga era feliz e não sabia.
 
De uns tempos para cá, porém, Portuga caiu em desassossego. Tascou o sobrinho para trabalhar na birosca que construiu a muito custo e só atendia um ou outro mais chegado e somente quando a sua Lusa vencia uma partida. Mas o leitor sabe que tal ocasião não tem ocorrido com frequência o Portuga já não atende mais ninguém.
 
“Que piada de mau gosto é este porcaria de time”, gritava, quando o nível de tolerância liquidava as doses diárias de camomila que consumia. “Tem que trocar por Maracugina, Portuga”, provocavam os clientes. Mas ele não dava trela, porque não queria treta.
 
Portuga se incomodava, na verdade, porque sempre dizia aos quatro cantos a sentença que o fez amar este País — nem sempre próspero, tampouco acolhedor com o pobre coitado. “Pior do que não ser amado, é desistir de amar”. A frase ainda deixa o homem encucado. Acompanhou toda a epopeia de sua Portuguesa, mesmo quando a tragédia já se anunciava na tabela da Série B. A Lusa não dava mais bola para ele, mesmo assim, Portuga insistia em amá-la. “Por que não me livro logo, disso, meu deus?”, questionava, de supetão, para interrogação geral da freguesia.
 
Na terça-feira, Portuga sequer abriu o botequim. Disse que tinha compromisso e tal. Mas todos nós sabemos que o sumiço era por luto. Quando viu que a Lusa cairia mesmo para a Série C, o velho emudeceu e caiu de cama. Não queria papo. Não queria lucro. Só pensava em dormir, dormir e dormir. Talvez sonhar. Como nos tempos em que desembarcou no Brasil desacreditado, como se estivesse na zona de rebaixamento da vida, e chegou ao título inesperado antes mesmo de o campeonato terminar. Nem a Lusa merecia tanto amor assim.






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1 Cruzeiro 61
2 São Paulo 56
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